segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O coração de um guerreiro Tukano silenciou


Álvaro Tukano e Moura Tukano na Feira do Livro Indígena, em Mato Grosso.

Ontem, dia 3 de agosto, em Manaus(AM), o coração do guerreiro Moura Tukano silenciou. Nós ficamos/estamos sem jeito, sem o seu sorriso largo.
O cidadão Manuel Fernandes Moura também se chamava Ahkëto, que significa líder responsável pelas danças e cerimônias sagradas. Filho do povo Tukano ou Yepamansã, o guerreiro Moura presidiu a Federação Indígena pela Unificação e Paz Mundial. Agora, ele está habitando entre os encantados, rodeado de eternos e sagrados cantos.
A saudade que eu tenho de Moura é bem grande e cada vez se alastra, desde os encontros de Escritores Indígenas no Rio de Janeiros, em Manaus, em Mato Grosso e noutras paragens onde Ñanderu permitiu que nós indígenas mostrássemos a nossa luta para não perder a nossa cultura, a nossa família, a nossa vida, a nossa história de tradição milenar.
Não me esquecerei do parente amigo Moura, do pensador que um dia conduziu outros parentes a prestigiar uma palestra minha na Academia Brasileira de Letras (ABL); só comecei a falar, quando o vi entrar acompanhado de outros parentes, olhando para mim com firmeza e um sorriso largo.
Uma das gratas recordações que eu tenho do Moura remete ao encontro que reuniu dezenas de escritores e artistas de diferentes etnias na I Feira do Livro Indígena, em Mato Grosso. Ao lado de outro líder indígena (Álvaro Tukano), o guerreiro Moura conduziu a cerimônia de abertura do evento, numa grande oca construída para acolher indígenas e não indígenas participantes do evento.
Tenho saudades de Moura. Guardarei os seus ensinamentos.  Aqui, destaco parte das respostas que gentilmente ele respondeu as questões relacionadas ao meu estudo sobre a lei 11645/08. Dezenas de parentes indígenas também colaboraram com a minha pesquisa, durante o meu estágio na Umesp, em 2011. A respeito dos desafios e perspectivas para o ensino da história e da cultura indígena, Moura ressaltou, entre outros aspectos, que a referida Lei:

vai despertar nos alunos a curiosidade de conhecer o processo de formação das culturas e sociedades indígenas, a educação real imposta aos brasileiros e desvendar a perversa trajetória da vida e história da sobrevivência do índio (...); que deve haver um novo início e uma nova formação da sociedade humana, mais justa no Brasil e na América Latina. (Cf. Revista Educação e Linguagem, Umesp, 2011, n.23/24).

Em nossa conversa, em 2011, Moura lamentou o fato de nós indígenas sermos vistos como selvagens, incapazes, preguiçosos, feiticeiros, diabólicos, atrasados, dementes e – como se não bastasse –  rotulados também de empecilhos para o progresso do Brasil.
Ontem, dia 3 de agosto, ao buscarmos consolo em meio a saudade que sentimos do Moura Tukano, o parente amigo Ademario Ribeiro (etnia payaya), por e-mail, comentou:  
Grão... em poucas palavras, leia o que nos enviou a Verônica há 7 minutos: "Confirmo que o coração do meu amado esposo parou ao meio dia, horário de Manaus. O corpo está velado na capela São Francisco da Cachoeirinha".

Que Nanderu Lhe e nos acolha!

Nordeste do Brasil, 4 de agosto de 2014

Graça Graúna 

domingo, 1 de junho de 2014

II Colóquio Língua e Educação Indígena na Aldeia Fulni-ô!


Imagem extraída do Colóquio

Dias 24 e 25 de julho de 2014

         O Colóquio Língua e Educação Indígena é um evento de natureza acadêmico-científica e extensional que busca levar à comunidade indígena Fulni-ô e às comunidades educacionais – professores, estudantes da educação básica, estudantes da educação superior dos muitos cursos ofertados na região por universidades privadas, pela rede UAB, pelos Campi avançados de Universidades Federais e Estaduais e de Institutos Federais – os resultados dos trabalhos efetuados nas academias sobre a questão indígena, mais especificamente língua e educação, de modo a difundir as informações, provocar debates e reflexões e instrumentalizar a comunidade para atuação em áreas indígenas.
Coordenação do evento:
Profa. Dr. Januacele da Costa (UFAL/Campus Maceió)
Profa. Ms. Fábia Fulni-ô (UFAL/Campus Sertão)

Organização:
Faculdade de Letras/UFAL, CAMPUS MACEIÓ
Curso de Letras/UFAL, CAMPUS SERTÃO
Núcleo de Estudos Indigenistas/UFPE
Núcleo de Estudos Indigenistas/UFAL

·         Presenças confirmadas
Dra. Stela Lameiras (UFAL) 
Dra. Stella Telles (UFPE)
Dr. Aldir Santos de Paula (UFAL)
Dr. Miguel Oliveira (UFAL- Maceió)
Dra. Eliane Barbosa (UFAL-Maceió)
Ms. Eronilma Barbosa (IFAL)
Dr. Ivamilson Barbalho (UFAL)
Dr. Jair Barbosa (UFAL)
Ms. Anari Braz Bomfim (CNE/MEC)
Dra. Edineide Santos (UniCEUB)
Dr. Rafael Lima (UFRPE)

·         Áreas Temáticas

1. Línguas Indígenas; 
2. Educação indígena; 
3. Leitura e produção de textos; 
4. Ensino de língua estrangeira;

5. Documentação de línguas ágrafas; 
6. Produção de Material Didático em Língua Materna (indígena); 
7. Descrição de línguas indígenas; 
8. Políticas Educacionais para a Educação Indígena.
9. Variação linguística e ensino

·         Instituições Promotoras

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL/Campi Maceió e Sertão
Núcleo de Estudos Indigenistas/UFAL/Campus Maceió
Núcleo de Estudos Indigenistas/UFPE/ Campus Recife
Escola Estadual Indígena Fulni-ô Marechal Rondon


terça-feira, 15 de abril de 2014

Documentário "Índio cidadão?" denuncia a violência contra os povos indígenas

14/4/2014

Crédito: João Américo, Secom/MPF

Sessão de pré-estreia do documentário "Índio Cidadão?" foi marcada por críticas a violações de direitos

 
Foto: João Américo, Secom/MPF

Para a subprocuradora-geral da República e coordenadora da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (populações indígenas e comunidades tradicionais), Deborah Duprat, o momento atual é "o período mais dramático da história indígena", marcado por "um grupo que promove o discurso do ódio". O diretor do documentário, Rodrigo Siqueira, questiona: "Quanto tempo mais esse país vai negar sua identidade indígena?". Ambos participaram, na tarde desta segunda-feira, 14 de abril, de debate que se seguiu à sessão de pré-estreia do documentário "Índio Cidadão?".

Produzido pela 7G Documenta, o filme resgata a história da campanha popular promovida por povos indígenas na Constituinte, entre 1987 e 1988, e documenta a atuação recente do movimento indígena em defesa de seus direitos constitucionais, ameaçados, por exemplo, pela Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 215 e pelo Projeto de Lei Complementar (PLP) 227. Em 2013, grandes mobilizações foram promovidas em Brasília pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

A PEC 215 propõe que a demarcação de terras indígenas não seja mais exclusividade do Executivo e passe a aprovação de novas demarcações e a revisão daquelas já homologadas para o Legislativo. Já o PLP 227 define áreas que não poderiam ser demarcadas por se tratarem de "bens de relevante interesse público da União", como terras de fronteira, perímetros rurais e urbanos de municípios e áreas produtivas.

Além de Duprat e Siqueira, compuseram a mesa o procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida, que tem atuação destacada na temática no Mato Grosso do Sul, estado marcado por conflitos entre indígenas e não indígenas; a indígena Valdelice Veron, filha do cacique guarani kaiowá Marcos Veron, assassinado no município de Juti (MS) em janeiro de 2003; os também indígenas Ailton Krenak e Álvaro Tukano; e a deputada federal Erika Kokay.

Confira algumas de suas principais falas:
  • Marco Antonio Delfino relata situação indígena em MS: "Quadro de violação dos direitos humanos gravíssimo"
  • Erika Kokay: "Em uma sociedade pautada pelo consumo, os indígenas lutam (contra o poder econômico) pelo direito de ser"
  • Erika Kokay: "Nossa constituição está sendo ameaçada" (...) "quando parlamentares apresentam uma PEC como a 215"
  • Álvaro Tukano: "Este filme deve ser exibido mas escolas públicas e privadas, nas universidades"
  • Álvaro Tukano: "O Congresso brasileiro não pode continuar decidindo sem a presença de indígenas"
  • Ailton Krenak: "Desafio que o Estado não seja omisso nos casos de violência contra crianças e mulheres indígenas"
  • Ailton Krenak: "Parece que a fala do povo indígena não encontra audição nas instituições do Estado brasileiro"
  • Valdelice Veron: "Queria pedir pra vocês fazer o papel falar" (que valham as demarcações)
  • Valdelice Veron: "Não sei mais pra onde pedir socorro hoje"
  • Valdelice Veron: "É uma vida de crueldade que temos passado" (sobre dificuldades geradas pela demora no processo demarcatório)
     
  • Veja a cobertura completa no Twitter
O documentário "Índio Cidadão?" tem estréia prevista para 19 de abril, às 14h, na TV Câmara. Também estão previstas exibições gratuitas gratuitas na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e na semana do Acampamento Terra Livre (também conhecido como Abril Indígena), em Brasília.

Secretaria de Comunicação Social
Procuradoria Geral da República
(61) 3105-6404/6408

domingo, 9 de março de 2014

Fen’Nó: somos a raiz da esperança



Não conheci dona Ana da Luz Fortes do Nascimento (Fen’Nó), essa guerreira da nação Kaingang, mas seu pensamento me vestiu de coragem pra enfrentar também os desafios do meio acadêmico. 

Foi em março de 1999 que eu vi a reportagem de capa do Jornal Porantim dedicado a uma anciã kaingang; uma homenagem pelo dia da mulher. Quando li as palavras de  Fen’Nó, no Jornal Porantim,  intui que eu deveria – a partir de então – compartilhar o seu pensamento com os meus alunos e com todos interessados pela nossa cultura. 

Aprendi com Fen’Nó que nós mulheres indígenas “somos fecundas. (...) Somos a multiplicação  das lutas como a terra multiplica o cereal plantado. Somos a raiz da esperança”. Hoje, tomei conhecimento que Fen’Nó habita agora entre as estrelas. Tenho certeza que Fen’Nó está bem pertinho de Ñanderu, intercedendo por todos nós e multiplicando a nossa esperança de um mundo melhor.

No meu livro “Contrapontos da literatura indígena contemporânea..”, dedico o cap.3 à poesia escrita por mulheres indígenas e é justamente nesse capitulo que o pensamento de Fen’Nó me guia para relatar um pouco da nossa cultura indígena.
A luta continua, Fen’Nó.. 
Que Ñanderu nos acolha, 

Nordeste do Brasil, Graça Graúna

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Literatura: diversidade étnica e outras questões indígenas


Amigos(as):

Agrada-me informar  a publicação do meu artigo "Literatura: Diversidade Étnica e outras Questões Indígenas" na Revista Todas as Musas. Em tempo, tomo a liberdade de compartilhar o Editoral do n. 2, referente a jan/jun de 2014:

Editorial 
“Cultiva a Tua Diferença” 
Vergílio Ferreira 

A nossa revista chega ao seu décimo volume trazendo corajosamente um dos temas mais importantes, e controversos, das relações sociais contemporâneas. Um assunto tão premente não poderia passar despercebido por artistas e escritores e, da mesma forma, não poderia deixar de ser discutido pelos nossos professores e pesquisadores. O dossiê desta edição tratará da Diversidade étnica, psicobiológica e de gênero na literatura e nas artes, por meio de trabalhos de pesquisadores com muita experiência no assunto. Em especial, os editores querem agradecer aos professores Jorge Caê Rodrigues, Carlos Henrique Bento, Jose Adriano da Silva Alves e Graça GraúnaEm nossa seção de artigos, os diálogos entre as artes, marca de nascença da revista, estão presentes em diversos trabalhos. Temos ainda um leque amplo para a leitura que vai desde a polêmica figura de Gregório de Matos até a poesia no ciberespaço, passando por Maupassant, Graciliano Ramos e pela recente best-seller americana, Kathryn Stockett. A seção de resenhas traz dicas excelentes para a leitura de professores e de interessados pela literatura de Paulo Mendes Campos e pelo sempre presente Mikhail Bakhtin. Mais uma vez, a revista se mantém aberta para debates e questionamentos por meio de seu endereço eletrônico. A todos, uma boa leitura. Os editores. 





A revista traz muitas leituras importantes acerca de diversidade e cultura. Espero que compartilhem a leitura e expressem também opiniões. Obrigada, muito obrigada mesmo pela atenção.
Saudações literárias,
Graça Graúna