Blog dedicado ao estudo de literatura e interculturalismo


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sábado, 25 de maio de 2019

Carta de Ameríndia


João Paulo Ribeiro (guarani/SP) é doutorando da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR/SP), na área de Linguística, com pesquisa voltada para as línguas indígenas. No mestrado, pela mesma Universidade, ele defendeu uma pesquisa também relacionada ao mundo indígena; agora transformada no livro: “Profética da tradução: guia turístico”, sob os cuidados de Pedro e João Editores/SP.  O lançamento ocorrerá no Simpósio Poéticas Indígenas, durante o XVI Congresso Internacional de Literatura Comparada (Abralic), na UNB, entre 15 e 19 de julho de 2019. O autor pediu que eu escrevesse um comentário acerca da sua “profética do traduzir”, à luz da narrativa “Vidas secas”, de Graciliano Ramos. Nesse sentido, diretamente de Ameríndia, preferi escrever uma Carta ao parent’amigo João, seguindo a intuição, a “geografia do pensamento”.
Saudações indígenas,
Graça Graúna



Ameríndia, 22 de março de 2019

Meu  Parent’Amigo João,

ouça: dei voltas e voltas para deixar, aqui (no Dia Mundial da Água), um pedacinho do meu entendimento a respeito da sua profética do traduzir. Aprendo muito com o seu jeito de ler o mundo. Por isso, cabe sublinhar o seu ato generoso ao traduzir para o Nhengatu algumas passagens de “Vidas Secas”, do nosso Graciliano Ramos; especificamente o capítulo “Mudança”, em que você vislumbra a presença de Sinha Vitória pelo Alto Rio Negro, na região amazônica.
Reflito acerca das camadas que encobrem os acontecimentos em Babel: mil povos, mil línguas… enigmas tantos… e me pergunto: quem poderia decifrar a aparição daquela mulher indígena no quadro de Albert Eckhout? Parente João, as suas reflexões me deixam à vontade para dizer que a licença poética é um tipo de escritura que devemos recorrer para não cair nas armadilhas do já visto. Ao manejar essa licença, o xamã-tradutor intui que Sinha Vitória poderia ser aquela mulher Tupinambá (na gravura de Eckhout) com cesto de palha na cabeça e com um filho escanchado no quarto.
No universo das relações cosmológicas, para mim também faz sentido associar a imagem de Sinha Vitória ao grupo de mulheres indígenas do povo Pankararu/PE. Como você sabe, durante a festa do umbu que ocorre no mês de março, a celebração conta com um grupo de mulheres indígenas que transporta na cabeça cestos de cipó com oferendas aos encantados, na festa dos praiás.  Assim me parece o sentido da busca em Sinha: fortalecer o desejo de celebrar a vida, apesar do cenário embrutecido pela seca, entre outras adversidades. O tradutor-xamã percebe que essa conexão é fundamental para a sobrevivência dessa família. Ao enxergar o Universo de uma maneira diferente, o narrador e o tradutor xamãs dão provas de que o sertanejo é mesmo, antes de tudo, um forte; como diria o autor de “Os sertões”. 
Ao ler “Vidas Secas”, sempre me espanto com o espaço e o tempo da narrativa que não aliviam a barra que é o sofrimento de uma família nordestina, pobre e infeliz, que se vê obrigada a deixar a terra. A mudança é um soco no estômago e por mais que a família de “Vidas Secas” se veja obrigada a mudar de lugar, a vida continua a mesma. Talvez haja alguma saída. A cachorra Baleia, os meninos e os pais: para onde vão? O que eles pensam, o que esperam? O que leva Sinha Vitória dentro daquela trouxa na cabeça? Ela carrega uns segredos? Quem poderá saber?
 Parent’Amigo João, lamento dizer que é também desolador o cenário onde serpenteia o Rio Negro, ali, em São Gabriel da Cachoeira. Nessa região a vida está submersa na fome, no suicídio e no êxodo; todavia apesar do estado degradante, famílias indígenas também sonham uma possível viagem de volta. Fico até sem jeito de falar assim, ao mostrar tanta paisagem triste. Receio em desapontar o espírito xamânico que norteia o seu livro, porém logo me recupero ao intuir o tempo da cura nas brincadeiras dos dois Meninos com uns boizinhos de barro; o céu de Baleia habitado de preás e o espanto de Fabiano com as palavras de Sinha Vitória; “palavras que ela murmurava, por confiar nele”.
Parente João, a primeira impressão que eu tive dos seus escritos aqueceu a memória que eu trago do meu velho pai; eu gostava mesmo era de ouvir a leitura de “Vidas Secas” que ele fazia para mim. Careço desta lembrança para continuar esta Carta; pois andei matutando sobre o desafio de caminhar pela “geografia do pensamento”, como sugere a sua poética do traduzir. Em meio a esse desafio, caminho por Ameríndia e as buscas revelam que não existe apenas um centro da terra e que são muitos também os corações da mata. Nessa trajetória, o desejo primeiro é não alargar os passos; pois devemos pisar o chão, bem devagar, em busca de Yvy Marãe’yma ou Terra sem males; contudo diante do estado de emergência e enfrentamentos gerados pela ganância, a sagrada força da natureza pede que avancemos.
Quero também, ressaltar mais um aspecto da sua escrita xamânica; pois ao compartilhar a sua leitura crítica e criativa, você atualiza o nosso modo de ver em cada um dos personagens-parentes indígenas o que precisamos reconhecer em cada um de nós, no jeito de ser e de viver a nossa indianidade. O desafio é grande, sobretudo quando vem ao pensamento o direito de sonhar um lugar no mundo. Ainda que o tempo e o lugar apareçam degradados pela disfunção entre o homem, o espírito e a natureza; o pensamento indígena convoca o direito de bem viver. Infelizmente, nem tudo é como se sonha.  Dentro ou fora da literatura, a paisagem pode ser assustadora: o chão duro e rachado continua embrutecendo as pessoas e empurrando-as para às cadeias, para os muros, às relações artificiais, à indiferença, ao consumismo e à violência; compondo, assim, um cenário de horror. 
Quem leu o filme, viu o livro e sentiu in loco a terra ardendo; sabe que não estamos sozinhos; que a história e a memória estampadas em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, continuam pulsando. A caatinga continua se contorcendo de sede, parece gente sofrida. A sombra da família de retirantes se confunde com a sombra de vegetações esturricadas e curvadas pela seca. A paisagem acinzentada alimenta o imaginário que fazem do homem e da mulher do Sertão; homens e mulheres indígenas rotulados de pardos e que se misturam à pedra, à poeira, à invisibilidade dos seres que resistem e se alastram pela terra.
A busca por uma Terra sem males é tão real, que o direito de sonhar nos faz ver uma família indígena em  “Vidas Secas”; numa travessia, subindo e descendo serras, atravessando os estreitos das montanhas até alcançar as margens do Rio Negro, na Região Amazônica, bem ali, no entorno de São Gabriel da Cachoeira e noutros cantos da Ameríndia.  Tudo é possível, parente João; a sua escrita xamânica deixa no leitor a vontade de escutar o outro e enxergar outro mundo, onde os encantados se comunicam com os homens. Tudo é possível, porque o narrador-xamã revela em “Vidas Secas” uma família que luta e sonha; assim como sonhou Fabiano em ficar bem velhinho ao lado de Sinha Vitória e ver os meninos na escola, “aprendendo coisas difíceis e necessárias”.
Nesse caminho, cabe não descuidar do que apreendemos das realidades comunitárias; da consciência cosmológica, da harmonia e dos mistérios que nos cercam; pois o Universo é uma entidade viva – como diria Patric Drouot, autor do livro “O físico, o xamã e o místico”. Querido parente João: a literatura continua se perguntando:  que direção devemos seguir? Não teria sido o direito de sonhar, que motivou Sinha Vitória a driblar o caminho da indesejada das gentes?
Sigo os passos madrugados do encantado; sigo a natureza e digo não, definitivamente não, aos paradigmas do mundo ocidental; pois enganadora é sempre a resposta que propaga as belas mentiras. Prefiro a dádiva que é a intuição ou mensageira da alma, como dizem os antigos.
Saudações indígenas,
Graça Graúna
(filha do povo Potiguara/RN)


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Abralic 2019. Simpósio Poéticas indígenas em foco





Abralic. Imagem extraída do Google

XVI CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Brasília, UNB, 2019
Resumo do Simpósio n. 86


POÉTICAS INDÍGENAS EM FOCO

Coordenação:  Profª. Drª Graça Graúna (UPE); Profª. Drª Maria Silvia Cintra Martins (UFSCar)


O tema deste Simpósio reafirma o nosso compromisso com a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, aprovada em 2007, ao convocar a comunidade internacional a se mobilizar para assegurar total respeito pela dignidade, pelo bem-estar e pelas liberdades fundamentais dos povos indígenas. O foco do Simpósio trata das poéticas indígenas em suas diferentes manifestações. Nesta perspectiva, serão bem-vindos trabalhos em torno da literatura e das artes indígenas em geral, incluindo o cinema, as cantorias, a contação de histórias, a pintura corporal, a dança, a música, os cantos xamânicos, o ato de declamar, o grafismo rupestre e o grafismo urbano de autoria indígena, entre outras artes visuais. Sendo o congresso da ABRALIC de teor acadêmico, serão bem-vindos, de toda maneira, trabalhos que se façam acompanhar de performances ou representações. Além disso, em se tratando das artes indígenas, que possuem, por natureza, viés transdisciplinar, também será possível e desejável que temáticas como as dos direitos de indígenas sejam abordadas, conjuntamente à temática das poéticas indígenas. Um exemplo da poética indígena reside no poema declamado por Ailton Krenak (liderança indígena) no dia 3 de agosto de 2018, durante uma roda de conversa sobre literatura indígena, no Congresso da ABRALIC, em Uberlândia/MG; trata-se do poema “Continuum”, que ele escreveu em 2005, na Serra do Cipó/MG. Continuum também pode ser o conjunto de acontecimentos sequenciais e ininterruptos, tais como sugerem as reflexões da ABRALIC 2018 acerca de circulação, tramas e sentidos na Literatura. Nesse ritmo, o Simpósio POÉTICAS INDÍGENAS EM FOCO nos aproxima (em vários sentidos): das canoas, dos rios e riachos; das montanhas, das serras; das lutas, dos sonhos; do programa “Voz Indígena” (junto à Rádio UFSCar, da Universidade Federal de São Carlos, que já conta com 65 edições) liderado por João Paulo Riberio (indígena guarani), que, em sua pesquisa de doutorado, propõe a poética do traduzir para o Nheengatu a obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, abrindo, com isso, um leque de possibilidades: a valorização e retomada das línguas indígenas; a valorização das culturas indígenas, incluindo-se, nesse caso, o xamanismo, já que o acadêmico guarani propõe que o ato tradutório se dê na esteira das práticas xamânicas, chamando-nos a lembrar a importância do xamã como um tradutor entre mundos;   a revisita da obra de Graciliano Ramos, por meio de uma abordagem que prevê o multinaturalismo e o perspectivismo indígena. O Simpósio também abrange a poética do sonho azul nos versos do mapuche Elicura Chihuailaf. A poética de Elicura denuncia a sua condição de indígena exilado. Na entrevista ao site  Crítica.Cl, ele comenta que apesar do deslocamento,  a poesia revela que a cada dia ele “aprende a apreciar o que significa habitar no meio de uma diversidade tanto na natureza quanto entre os homens”. A percepção do mundo indígena também é notória na poesia charrua de Maria Huebilu a nos lembrar que os ancestrais continuam vivos em nós, assim como a crônica de Severiá Idioriê, entre outros textos escritos por mulheres indígenas no volume 4, da Revista LEETRA Indígena, da UFSCar, em 2014. Desse modo, seguimos, nesta XVI ABRALIC, no continuum – como diria o poeta – entre literatura e outros saberes como sugere a voz da terra na poética indígena. E a propósito do Ano Internacional das Línguas Indígenas – dedicado pela ONU ao ano de 2019 – cabe reiterar o direito de sonhar um mundo melhor; o direito de intuir os sentidos da literatura indígena e tudo que nos aproxime da poesia necessária, como sugere o poética do “Continuum”, no rastro dos nossos ancestrais.

REFERÊNCIAS:

ABRALIC.  Circulação, tramas & sentidos. Congresso Internacional. Uberlândia/MG, 2018.

CHIHUAILAF, Elicura. Sonho azul. Disponível em:  https://issuu.com/grupo. leetra/ docs/ leetra_vol4. Acesso em 05.jan.2019.

CHIHUAILAF, Elicura. Entrevista. Disponível em: http://critica.cl/entrevistas/entrevista-al-poeta-elicura-chihuailaf-“el-estado-protege-saqueo-del-territorio-mapuche” . Acesso em 05.jan.2018

GRAÚNA, Graúna. Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2010.

HUEBILU, Maria. Abuelas. Disponível em: grauna3@gmail.com. Acesso em  05.jan.2019.

IDIORIÊ, Severiá. Quem somos? Para onde vamos? Disponível em:  https://issuu.com/grupo. leetra/ docs/ leetra_vol4. Acesso em 05.jan.2019.

KRENAK, Ailton. Continnum. Poema declamado na Mesa “Vozes ameríndias”, Congresso da Abralic/2018, Uberlândia, MG.

LEETRA Indígena. Volumes 1 a 18. São Carlos: UFSCar/ Grupo de Pesquisa LEETRA. Disponível em: www.leetra.ufscar.br

MARTINS, Maria Sílvia Cintra (Org.). Ensaios em Interculturalidade: Literatura, Cultura e Direitos de Indígenas em época de globalização. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2014.

RIBEIRO, João Paulo. Guia Turístico: Tikanga rikue: uma profética do traduzir. São Carlos: Pedro & João Editores, 2018.