domingo, 15 de maio de 2011

Lamento nacional de um guerreiro*


Imagem extraída do Google

Autoria: Manuel Fernandes Moura, líder indígena Tukano (AM)*

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas,
atrás das margens, gritos reprimidos por tortura,
lágrimas de um povo heróico – o brado que não retumba
O sol da liberdade, em raios contidos
tem vergonha de brilhar em nossa Pátria
Se a mentira desta igualdade,
conseguimos demonstrar com braços mortos,
Em Teu seio, ó Liberdade, desafia à mortandade planejada
Ó Pátria amada, atraiçoada, queremos te salvar!
Brasil de um sonho intenso e pesadelo imenso
Um raio frio de amor e de esperança com a Terra chora
Se em teu fumaçoso céu, choroso e inerte,
à imagem do Cruzeiro, de vergonha não aparece
Gigante pela própria natureza!
És devastada, destruída, humilhada e fragilizada, sem amor,
Ó antigo colosso, e o teu futuro espelha este horror
Terra adorada por poucos – somente pelos filhos da Terra
Entre outras mil és tu Brasil como as demais latino-terras
Dos filhos indignos deste solo és mãe humilhada,
Pátria amada por poucos... Brasil.
Deitado eternamente amordaçado
e outros em berço esplêndido,
ao som do mar e rios poluídos,
trevas que afrontam o céu profundo..
Fulguras, Ó Brasil, como terceiro mundo,
como lixo da América
abandonado e violado na camuflagem
que impede a chegada do sol para um novo mundo.
Do que a terra, mais varrida
Teus chorosos, tristes campos não têm flores
Nossos bosques têm desertos
Nossa vida no Teu seio, mais horrores
Ó Pátria amada
Idolatrada por alguns,
Salve-se! Salve-se!
Brasil de amor oculto nas florestas seja símbolo.
O lábaro que ostentas camuflado
E diga ao verde-louro desbotado pela farsa,
que a Paz é possível no futuro
se os falsos filhos forem embora
para deixar cicatrizar as chagas do passado!
Mas se ergues da justiça (clavada)
verás que só os verdadeiros filhos não fogem à luta
e te cultuam nos resguardos das florestas e aldeias isoladas.
Nem teme, quem te adora de verdade, sem dinheiro,
sem títulos e sem fardas.
Terra adorada!
Entre outras mil também és saqueada e humilhada.
Dos filhos deste solo,
tens vergonha dos que violam tuas entranhas,
deserdados pela força de ancestrais heróis que ora se juntam a nós –
filhos autênticos que por ti morreram e morrem, Mãe Gentil,
PÁTRIA AMADA E AMARRADA, BRASIL!


 Moura (o 1º da esq.), no Flifloresta, em Manaus, 2009.

Nota:
1) No  Curso Temas de direitos humanos (coordenado pela Prfoª Draª Roseli Fischmann e organizado pelo Prof. Ms. Oswaldo de Oliveira Santos Junior), apresentei o poema "Lamento de um gueirro", no dia 12 de maio de 2011, durante a minha palestra Literatura, direitos humanos e direitos indígenas na escola, junto ao Núcleo de Educação em Direitos Humanos, na UMESP. Na ocasião, o poema do Moura foi lido pelo Prof. Marcelo Furlin.

2) Este poema faz parte da Antologia indígena (pp. 31-32) , da qual também participo. A antologia foi publicada pela Secretaria de Estado de Mato Grosso/Inbrapi/Nearin, em Mato Grosso, nov. 2008. O autor Manoel Fernandes Moura é presidente da Federação Indígena pela Unificação e Paz  Mundial (FIUPAM). Conforme informações do autor, o poema foi escrito depois do IV Festival Indígena do Triângulo Amazônico, em Atalaia do Norte, no ano de  2002. (Graça Graúna)

3 comentários:

  1. Ô, Graça, que pena! Estou na Bahia, senão, eu já estaria por inteiro. Como geograficamente não posso estar - estarei na alegria dessa oferta tão brilhante e imprescindível!

    Beijos e boa sorte à todos, docentes e discentes!

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  2. G querida G, eu desejo saudar o poeta Moura que sempre soube ser índio e poeta, ser humano de grandeza. Fico feliz Moura, por sua verve, por suas palavras certeiras e criativas!

    Viva a poesia, ave sem asas!
    Viva a Graúna, avepotiguara!
    Viva Moura, aveamazônica!

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  3. Ademario - meu poetamigo payaya: seu coração e generosidade são imensos. Gosto da sua presença aqui que me fortalece e encanta a todos que conhecem a tua poesia. Também fico feliz pela leitura primorosa que você faz do poema do nosso pajé-poeta Moura Tukano. Que beleza! Viva Ademario que tem o brilho de Ñanderu nas coisas escritas. Na luta de sempre, Graça-Graúna-Grão

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