quinta-feira, 17 de maio de 2012

Literatura indígena contra os moinhos de Dom Quixote

 
Armando Romanelli (1945)
Dom Quixote e os Moinhos – A.S.T. – 100 x 100 cm - 2005

(imagem extraída do Google)


por Daniel Munduruku
Abril costuma ser um mês bastante importante para a divulgação da questão indígena em terras brasileiras (antes dir-se-ia: em terras Tupinikim). Eventos ocorrem em todos os quadrantes para lembrar à sociedade que aqui sobrevivem teimosamente 250 povos tradicionais, falantes de aproximadamente 180 línguas e que ocupam 13% do território nacional. Foram eventos políticos, culturais ou educativos necessários para se quebrar estereótipos e conceitos preconcebidos que já perduram há centenas de anos na cabeça do brasileiro.
Não à toa a mídia ocupou parte de seu horário para falar sobre o tema. Nem sempre boas notícias. Ou melhor, quase nunca. A sociedade brasileira foi bombardeada por inúmeras notícias parciais sobre invasões de terras ou prédios públicos por parte dos indígenas. As versões eram sempre das “vítimas” consultadas. Raramente a palavra era dada aos “invasores” reforçando a falsa idéia de que os “índios” são baderneiros, violentos, insensíveis.
Xingu foi uma rara exceção nos noticiários. Todos exaltaram as qualidades do filme que retrata a saga dos irmãos Villas-Boas, autênticos heróis contemporâneos. O filme, parece, não decolou para o desespero de seus produtores. Impressão ruim de que “os brasileiros não gostam de índio”, como afirmava Darcy Ribeiro. Nem todos, penso eu. Tenho alguma esperança. Parte dela me é dada pela literatura.
Dentro do universo da literatura – que nos interessa aqui – os eventos realizados durante abril e começo de maio nos reforçam a esperança de que estamos num caminho que pode fazer mudar este quadro pintado pela história colonial brasileira e reproduzido pela imprensa.
Desde o começo do mês realizamos uma caravana literária, batizada Mekukradjá, palavra da língua Kaiapó que quer dizer transmissão de saberes. É um projeto que já tem estrada, pois começou no ano de 2011 e promete seguir adiante. Naquele ano passou por Manaus/AM, Cananéia/SP e Peruíbe/SP, graças ao apoio da Funarte através da saudosa bolsa de difusão literária. Este ano – graças ao apoio incondicional do Instituto C&A – passou pela cidade de Lorena, interior de São Paulo e Rio de Janeiro, onde juntou-se ao Salão FNLIJ de Livros para Crianças e Jovens e ali organizou o 9º. Encontro de Escritores e Artistas Indígenas; organizou, na UERJ, exposição de obras de artistas indígenas do Amazonas e Roraima; dialogou com estudantes da PUC/RJ; palestrou para imortais da ABL através da fala da indígena potiguara Graça Graúna; banqueteou-se através do sarau lítero-musical nos jardins da Biblioteca Nacional; falou das linguagens literárias na Escola de Cinema Darcy Ribeiro  e finalizou realizando o “1º. Caxiri na Cuia – Colóquios sobre Literatura Indígena” em parceria com a Universidade Federal de São Carlos através do Grupo de Pesquisa Linguagens, Etnicidades e Estilos em Transição, coordenado pela professora Maria Silvia Cintra Martins. Foram, portanto, eventos que atingiram crianças, jovens, educadores, acadêmicos, universitários e o público em geral. Foram momentos emocionantes e esperançosos para todos nós.
Além dessas ações que foram organizadas e protagonizadas pelos próprios indígenas – tentativa sempre louvável de ser fazer ouvir/ler – outros eventos ocorreram em que a Literatura Indígena se fez presente como a Feira do Livro de Bogotá, Bienal Nacional do Livro de Brasília, Bienal do Livro do Amazonas, Conferência Internacional de Empreendedorismo Indígena e a Feira do Livro de Atibaia. Não foram poucas as ações em um único mês. E quem as noticiou? Quem lembrou de colocar uma “notinha” nos jornais? Quem teve interesse em acompanhar a luta do pequeno Davi contra o grande Golias? Quem viu dom Quixote lutando contra os moinhos de vento?
Aqui não cabe uma crítica, mas uma constatação: somos mesmos sobreviventes. E vamos continuar...e não por teimosia, mas por respeito ao sacrifício de nossos antepassados. Ser teimoso não é um dom, ter respeito à memória é.
Sinceros agradecimentos a todos/as que fizeram a Literatura Indígena assumir seu protagonismo dentro da sociedade brasileira. São muitos os nomes e por isso fica meu abraço fraterno ao Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas do Inbrapi – NEArIn – que reúne, congrega, integra, difunde, apóia e incentiva a difusão da literatura indígena

Nota: o texto (Litratura indigena...) foi publicado neste blog com a devida autorização do autor.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Hutukara realiza IIº Encontro de Xamãs Yanomami

 Txto e imagem: ISA

Em ano de comemoração dos 20 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami, evento reforça a importância do xamanismo na defesa territorial e proteção ambiental.
 
Logo dos 20 anos da TI Yanomami
A convite de Davi Kopenawa, presidente da Hutukara Associação Yanomami, 33 dos principais xamãs Yanomami reuniram-se na aldeia Watoriki (AM) entre os dias 24 e 28 de abril para trocar experiências e juntar forças na defesa do território indígena invadido por garimpeiros e fazendas. O encontro contou ainda com a participação de Vicente Castro, o mais antigo e prestigiado xamã Ye’kuana, etnia que também vive na Terra Indígena Yanomami.
Assim como o 1º Encontro, que ocorreu em março de 2011, o 2º Encontro foi idealizado e organizado pela Hutukara em parceria com o ISA e o Instituto do Século XXI (i21), e teve a participação de xamãs das regiões do Demini, Toototobi, Parawau, Novo Demini, Missão Catrimani e Komixi.
 
Vicente Castro, o mais antigo xamã Ye'kuana, e Davi Kopenawa
No contexto das comemorações de 20 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami (1992-2012), as grandes pajelanças coletivas realizadas durante o evento foram voltadas especialmente para a proteção da ”terra-floresta” (urihi a), promovendo a “limpeza” xamânica das áreas degradadas pelo garimpo e desmatadas pelas fazendas, intensificando a luta dos espíritos da floresta (xapiri pë) contra os invasores.
 
Xamãs reunidos no patio central da aldeia Watoriki
Outro objetivo fundamental do encontro foi consolidar a transmissão dos saberes e rituais xamânicos tradicionais para as novas gerações Yanomami a fim de garantir a perenidade da luta pela defesa da Terra Indígena. Assim, as grandes sessões xamânicas diárias na aldeia Watoriki contaram com a participação de um importante contigente de jovens xamãs em processo de iniciação, entre os quais se destacou Gleidison Yanomami de apenas 16 anos, o mais recente aprendiz xamã da comunidade.
 
O jovem xamã Gleidison Yanomami
O encontro foi integralmente registrado pelo cinegrafista yanomami Morzaniel Iramari, que editará um vídeo sobre o evento no quadro das comemorações dos 20 anos da Terra Indígena Yanomami. O video será divulgado pela Hutukara em todas regiões da área Yanomami e colocado a disposição do público no site da Hutukara. Veja em vídeo uma seleção das imagens registradas