sábado, 21 de maio de 2011

Manifesto pelos direitos das mulheres indígenas brasileiras


 Imagem extraída do Google

Nós Mulheres Indígenas, Lutamos pela efetivação de construção as políticas públicas voltadas às mulheres indígenas, na demarcação das terras, na educação diferenciada, na saúde de qualidade para a mulh er e a criança indígena, Entendemos que devemos ser incluídas nos espaços públicos do qual estamos excluídas há muitos séculos. Acreditamos sermos as verdadeiras agentes de transformação, contribuindo assim para a construção de um mundo mais justo e fraterno. Pela valorização das mulheres indígenas, elencamos 13 diretrizes para contribuir com o novo governo para a realização das ações afirmativas. 13 DIRETRIZES DA MULHER INDÍGENA - EMPODERAMENTO, AUTONOMIA, PROTAGONISMO, EQÜIDADE DE GENERO 1 – Criação da SUBSECRETARIA DA MULHER INDÍGENA no Governo Federal e nomear uma MULHER INDIGENA para essa FUNÇÃO, com AUTONOMIA FINANCEIRA, para desenvolver projetos sociais para os POVOS INDÍGENAS 2 – Assegurar maior REPRESENTAÇÃO da MULHER INDÍGENA no Governo, com a inclusão efetiva da mulher em instancias de poder, como nos Conselhos Consultivos, Ministérios e Secretarias. 3 – Assegurar a PARTICIPAÇÃO da MULHER INDÍGENA nos processos de decisões que afetem seus interesses e demandas. 4 – Garantir 30% de VAGAS à mulher indígena nas FUNÇÕES E CONCURSOS PÚBLICOS. 5 – Criar o PROGRAMA DE ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL da MULHER e da CRIANÇA INDIGENA 6 – Garantir saúde de qualidade com a criação do “PROGRAMA DE ATENÇÃO INTEGRAL A SAUDE da mulher e da criança indígena”. 7 – Demarcação e apoio à GESTÃO TERRITORIAL, POLÍTICA E ECONÔMICA das TERRAS INDIGENAS. 8 – Planejamento, Desenvolvimento e implementação de PROJETOS ESPECÍFICOS E AUTO-SUSTENTÁVEIS para a mulher indígena. 9 – ERRADICAÇÃO do ANALFABETISMO e inclusão de PROGRAMAS EDUCACIONAIS, bem como acesso efetivo à EDUCAÇAO SUPERIOR e CULTURAIS para as MULHERES INDIGENAS. 10 - POLITICAS PÚBLICAS EFETIVAS voltadas para as Mulheres Indígenas, como a QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL, CURSOS DE INFORMÁTICA NAS ESCOLAS INDIGENAS. Amplo acesso às UNIVERSIDADES. 11 – Criação de PROGRAMAS DE VALORIZAÇÃO E CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL pa ra a inserção no MERCADO DE TRABALHO COMO PROFISSIONAIS, GERAÇÃO DE RENDA E EMPREGO para as Mulheres Indígenas. 12 - Criação de PROJETOS DE ESPORTE E LAZER nas Comunidades Indígenas para o combate a todo tipo de violência contra a mulher e criança indígena. 13 – Fortalecimentos e estimulo à palavra da Mulher Indígena como fator relevante sobre as questões familiares, comunitárias e culturais da sociedade nacional. “a palavra da mulher é sagrada como a terra” (palavras de um sábio líder indígena) CONAMI - Conselho Nacional de Mulheres Indígenas - Articulação, Promoção, Apoio e Defesa O Conselho Nacional de Mulheres Indígenas - CONAMI, criado em 23 de setembro de 1995, é uma entidade da sociedade civil, atua com equipes itinerantes nas diversas comunidades indígenas, lutando pelo protagonismo, autonomia e pela eqüidade de gênero, com acesso de oportunidades. Missão: Articular, defender, promover e apoiar a luta pelos direitos das mulheres in dígenas, instrumentalizando-as no conhecimento das leis para o enfrentamento da violência, do racismo, discriminação e o preconceito, para que as mulheres sejam respeitadas e valorizadas na sua forma de vida tradicional e cultural, para que atuem em espaços de diálogo junto aos gestores públicos, buscando uma melhoria na qualidade de vida. CONAMI - Conselho Nacional de Mulheres Indígenas: Articulação, Promoção, Apoio e Defesa

101 indígenas se formam em Magistério, na Bahia


 No dia 20 de maio de 2011, a Secretaria da Educação do Estado da Bahia (SEC) e Instituto Anísio Teixeira, promoveram a formatura de 101 alunos(as) do curso de Magistério Indígena, em Salvador.
O objetivo do Curso é preparar os professores para o exercício do magistério em classes de educação infantil e ensino fundamental, séries iniciais, baseado nos princípios de uma educação específica, diferenciada, intra e intercultural nas 60 escolas indígenas.
Conforme a SEC, o exercício docente será assumido por professores indígenas, dotar as escolas indígenas de professores com formação em nível médio. Outra meta é a Licenciatura Intercultural, em curso na Bahia, atendendo a 188 indígenas e acolhendo hoje mais de 80% dos concluintes dessa turma de Magistério. Foi também produzida uma diversidade de material didático (livros, cartilhas e vídeos, entre outros recursos) para uso nas escolas  junto aos Kiriri, Kaimbé, Pataxó, Pataxó hã hã hãe, Tupinambá, Tuxá, Pankararé, Xucuru Kariri, Pankaru,Tumbalalá e Kantaruré. 
Na Bahia, o programa de educação indígena az parte da política educacional construída no diálogo com o Fórum Estadual de Educação Indígena, “levando em conta as especificidades socioculturais de cada povo e seus projetos societários, assumindo o compromisso de melhorar a qualidade da educação oferecida a esses povos, contribuindo assim para a ascensão social das pessoas que compõem as comunidades indígenas de nossa terra” (SEC/Bahia).

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Foto extraída do Google.
          Blog Pensamentações de Ademario Ribeiro.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Literatura Indígena e Resistência

 Foto extraída do blog de Eliane Potiguara. Feira do livro indígena em Mato Grosso

8º. Encontro de Escritores e Artistas Indígenas

Tema: Literatura Indígena e Resistência
dx
               Local: Centro de Convenções SulAmérica
         Data: 14 a 16 de junho de 2011.
Justificativa
Diz-se que a literatura indígena está em franco crescimento o que é possível constatar pelo número de títulos que são publicados a cada ano tendo como autores indígenas de diferentes povos e regiões brasileiras.
Da parte dos autores há uma certeza: a literatura é um instrumento de resistência como o maracá o é da cura, do equilíbrio e do sonho. Ambos instrumentos são necessários para resgatar a memória ancestral e para lembrar que precisamos manter o céu suspenso. Ambos instrumentos são coletivos e servem para proteger o sono daqueles que lutaram para que chegássemos ao hoje e caminhássemos em direção ao último por do sol.
É com este objetivo que propomos a realização deste seminário no contexto do 12º. Salão FNLIJ do Livro Infantil e Juvenil desejando oferecer uma contribuição para melhor compreensão da presença indígena no Brasil e como este novo instrumento = a literatura – tem sido utilizado para ampliar a visão da sociedade brasileira sobre a riqueza da sociodiversidade indígena.
Além disso, queremos trazer uma pequena mostra de como a literatura indígena está sendo objeto de estudos nas universidades convidando alguns pesquisadores para fazer uma comunicação breve de suas pesquisas.

SEMINÁRIO FNLIJ-INBRAPI
Tema: Literatura Indígena e Resistência

Programação do Seminário FNLIJ – 16 de junho de 2011.


Parte da manhã
Ritual e apresentação dos convidados
Mesa de Abertura
Beth Serra (FNLIJ), Daniel Munduruku (Instituto UK’A) Cristino Wapichana (NEArIn), Patrícia Lacerda (Instituto C&A)

Mesa 01 - Contando histórias com a vida
Esta mesa objetiva ser um momento em que cada membro possa testemunhar suas lutas a favor dos povos indígenas brasileiros.
Convidados:
Ailton Krenak, (mediador)
Jacy Makuxi – Povo Makuxi/RR
Marcos Terena – Povo Terena/MS
Estevão Taukane – Povo Kura-Bakairi/MT
Manoel Moura – Povo Tukano/AM

Mesa 02 - Poéticas da resistência.
Esta mesa irá trazer a fala de indígenas que estejam produzindo textos com temas sociais e que reforcem a luta pela identidade étnica de nossos povos.

Convidados.
Ademario Ribeiro – Povo Payayá/BA
Graça Graúna – Povo Potiguara/RN
Eliane Potiguara – Potiguara/RJ
Olívio Jekupé – Guarani/SP
Severiá Xavante – Povo Xavante/MT (Mediação)

Parte da tarde
Sorteio da pontualidade (livros e arte indígenas)

Mesa 03 - O lugar da literatura indígena na academia: questões em aberto.
Esta mesa pretende trazer comunicações de pesquisadores não-indígenas sobre o lugar da literatura indígena no meio acadêmico.
Luis Fernando Nascimento (Universidade de Taubaté/SP) – A [re] construção da identidade indígena pela Literatura: Munduruku e o diálogo com a tradição.
Cassiane Ladeira ( Universidade Federal de Juiz de Fora/MG)- Poética da migração: uma leitura de Metade cara, metade máscara, de Eliane Potiguara
Alcione Pauli (Univille/SC) – Era uma vez... o poder da floresta e a sabedoria das águas num lugar não tão distante...
Ana Maria Almeida (UNIFESO/RJ) – Literatura Afro-brasileira e indígena na escola: A mediação docente na construção do discurso e da subjetividade.
Graça Grauna (Mediação e organização)

Mesa 04 - Sarau de poéticas indígenas com Marcelo Manhuari, Elias Yaguakã, Cristino Wapichana, Carlos Tiago, Ademario Ribeiro, Graça Graúna, Eliane Potiguara... e  quem mais desejar interagir.

Coquetel de encerramento do seminário com a presença de Beth Serra, da FNLIJ.
Lançamento coletivo de livros Indígenas e da Coleção Nheengatú – Editora Valer/AM

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Literatura indígena em Simpósio Internacional na UFJF


Simpósio Internacional Literatura. Crítica, Cultura V

Literatura e Política

 Programação

 

3ª. Feira – 24/05/2011
10h – Conferência de Abertura
14h às 17h – Comunicações de alunos de Programas de Pós-Graduação
17h – Coffee-break e lançamentos de livros
18h – 1ª mesa redonda – Literatura Indígena
Mediadora: Prof.ª Dr.ª Teresinha Vânia Zimbrão da Silva
Prof.ª Dr.ª Maria das Graça Graúna (UPE)
Prof.ª Dr.ª Maria Inês de Almeida (UFMG)
Prof. Dr. Charles Bicalho (UFMG)
20h – 2ª mesa redonda – Delírios da linguagem, políticas da vida: diálogos com Deleuze e Guattari
Mediadora – Prof.ª Dr.ª Terezinha Maria Scher Pereira
Prof. Dr. Alberto Pucheu Neto (UFRJ)
Prof.ª Dr.ª Ana Paula Kiffer (PUC-Rio)
Prof. Dr. André Monteiro Guimarães Dias Pires (UFJF)


 4ª. Feira – 25/05/2011
8h – 3ª mesa redonda – Literatura e resistência: dos marginais de 70 aos atuais
Mediador: Prof. Dr. Alexandre Graça Faria
Prof.ª Dr.ª Érica Peçanha do Nascimento (USP)
Prof. Dr. Allan Santos da Rosa (USP)
Prof. Dr. Alexandre Graça Faria (UFJF)
10h – 4ª mesa redonda – Literatura e ditadura: três vozes exemplares
Mediadora: Prof.ª Dr.ª Prisca Rita Agustoni de Almeida Pereira
Prof.ª Dr.ª Patricia Peterle Figueiredo Santurbano (UFSC)
Prof.ª Dr.ª Rosvitha Friesen Blume (UFSC)
Prof. Dr. Edimilson de Almeida Pereira (UFJF)
14h às 17h – Comunicações de alunos de Programas de Pós-Graduação
17h – Coffee-break e lançamentos de livros.
18h – 5ª mesa redonda – Escritas de si e política
Mediadora: Prof.ª Dr.ª Jovita Maria Gerheim Noronha
Prof.ª Dr.ª Maria Alice Rezende de Carvalho (PUC Rio)
Prof.ª Dr.ª Maria Margarida Martins Salomão (UFJF)
Prof.ª Dr.ª Jovita Maria Gerheim Noronha (UFJF)
20h – 6ª mesa redonda – Poesia e política
Mediador: Prof. Dr. Fernando Fábio Fiorese Furtado
Prof. Dr. Carlos Felipe Moisés (USP)
Prof. Dr. Alckmar Luiz dos Santos (UFSC)
Prof. Dr. Wilberth Claython Ferreira Salgueiro (UFES)


 5ª. Feira – 26/05/2011
8h às 12h – Comunicações de alunos de Programas de Pós-Graduação
15h às 17h – 7ª mesa redonda – Literatura e Política
Mediadora: Prof.ª Dr.ª Enilce do Carmo Rocha Albergaria
Prof.ª Dr.ª Rita Chaves (USP)
Prof. Dr. Benjamin Abdala Júnior (USP)
Prof.ª Dr.ª Barbara Inês Simões Daibert (UFJF)
18h – Conferência de Encerramento –  Prof.ª Dr.ª Tereza Cristina Cerdeira da Silva, da UFRJ

domingo, 15 de maio de 2011

Lamento nacional de um guerreiro*


Imagem extraída do Google

Autoria: Manuel Fernandes Moura, líder indígena Tukano (AM)*

Ouviram do Ipiranga às margens plácidas,
atrás das margens, gritos reprimidos por tortura,
lágrimas de um povo heróico – o brado que não retumba
O sol da liberdade, em raios contidos
tem vergonha de brilhar em nossa Pátria
Se a mentira desta igualdade,
conseguimos demonstrar com braços mortos,
Em Teu seio, ó Liberdade, desafia à mortandade planejada
Ó Pátria amada, atraiçoada, queremos te salvar!
Brasil de um sonho intenso e pesadelo imenso
Um raio frio de amor e de esperança com a Terra chora
Se em teu fumaçoso céu, choroso e inerte,
à imagem do Cruzeiro, de vergonha não aparece
Gigante pela própria natureza!
És devastada, destruída, humilhada e fragilizada, sem amor,
Ó antigo colosso, e o teu futuro espelha este horror
Terra adorada por poucos – somente pelos filhos da Terra
Entre outras mil és tu Brasil como as demais latino-terras
Dos filhos indignos deste solo és mãe humilhada,
Pátria amada por poucos... Brasil.
Deitado eternamente amordaçado
e outros em berço esplêndido,
ao som do mar e rios poluídos,
trevas que afrontam o céu profundo..
Fulguras, Ó Brasil, como terceiro mundo,
como lixo da América
abandonado e violado na camuflagem
que impede a chegada do sol para um novo mundo.
Do que a terra, mais varrida
Teus chorosos, tristes campos não têm flores
Nossos bosques têm desertos
Nossa vida no Teu seio, mais horrores
Ó Pátria amada
Idolatrada por alguns,
Salve-se! Salve-se!
Brasil de amor oculto nas florestas seja símbolo.
O lábaro que ostentas camuflado
E diga ao verde-louro desbotado pela farsa,
que a Paz é possível no futuro
se os falsos filhos forem embora
para deixar cicatrizar as chagas do passado!
Mas se ergues da justiça (clavada)
verás que só os verdadeiros filhos não fogem à luta
e te cultuam nos resguardos das florestas e aldeias isoladas.
Nem teme, quem te adora de verdade, sem dinheiro,
sem títulos e sem fardas.
Terra adorada!
Entre outras mil também és saqueada e humilhada.
Dos filhos deste solo,
tens vergonha dos que violam tuas entranhas,
deserdados pela força de ancestrais heróis que ora se juntam a nós –
filhos autênticos que por ti morreram e morrem, Mãe Gentil,
PÁTRIA AMADA E AMARRADA, BRASIL!


 Moura (o 1º da esq.), no Flifloresta, em Manaus, 2009.

Nota:
1) No  Curso Temas de direitos humanos (coordenado pela Prfoª Draª Roseli Fischmann e organizado pelo Prof. Ms. Oswaldo de Oliveira Santos Junior), apresentei o poema "Lamento de um gueirro", no dia 12 de maio de 2011, durante a minha palestra Literatura, direitos humanos e direitos indígenas na escola, junto ao Núcleo de Educação em Direitos Humanos, na UMESP. Na ocasião, o poema do Moura foi lido pelo Prof. Marcelo Furlin.

2) Este poema faz parte da Antologia indígena (pp. 31-32) , da qual também participo. A antologia foi publicada pela Secretaria de Estado de Mato Grosso/Inbrapi/Nearin, em Mato Grosso, nov. 2008. O autor Manoel Fernandes Moura é presidente da Federação Indígena pela Unificação e Paz  Mundial (FIUPAM). Conforme informações do autor, o poema foi escrito depois do IV Festival Indígena do Triângulo Amazônico, em Atalaia do Norte, no ano de  2002. (Graça Graúna)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Literatura, direitos humanos e direitos indígenas na escola


 Imagem: cultura.gov.br


Curso de extensão universitária
Temas de Direitos Humanos

Apresentação: O Núcleo de Educação em Direitos Humanos (NEDH), da Faculdade de Humanidades e Direito (FAHUD), promoverá um curso de extensão universitária a partir do próximo dia 28/04/2011. O curso Temas de direitos humanos será ministrado pelos professores/as: Profa. Dra. Roseli Fischmann, Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera, Profa. Ms. Elizabete Cristina Costa Renders, Profa. Dra. Graça Graúna, Prof. Ms. Jonathan Hernandes Marcantonio e Prof. Ms. Oswaldo de Oliveira Santos Junior (organizador do curso). O curso terá seis encontros, oferecerá certificado de extensão universitária e será realizado sempre às quintas-feiras das 18h às 19h no auditório do Ed. Lâmbda, sala 454, Campus Rudge Ramos, Universidade Metodista de São Paulo.
Ementa: Reflexão e estudo sobre o conceito e fundamentos dos direitos humanos, a partir de temas contemporâneos que favorecem a compreensão da amplitude e complexidade do debate sobre direitos humanos, proporcionando uma visão geral acerca dos mecanismos internacionais de promoção, controle e monitoramento dos direitos humanos.
Inscrições: As inscrições devem ser feitas pelo email direitoshumanos@metodista.br, informando nome completo, telefone, endereço de email. O Curso é gratuito e aberto a todos/as os/as interessados/as. Maiores informações pelo telefone: 4366-5435. 


Temas do curso
28/04 - Educação em Direitos Humanos: desafios e possibilidades
12/05 - Literatura, direitos humanos  e direitos indígenas na escola
19/05 - Sobre o direito a ter direitos: os “sem religião” no Brasil secular 
26/05 - Sobre o direito a ser diferente: provocações sobre a hierarquização das diferenças na sociedade
02/06 - Democracia e pluralismo: A liberdade religiosa como fundamento intrínseco ao Estado de Direito
09/06 - Estado Laico: Uma introdução à laicidade do Estado

Programa das palestras:

28/04/2011 - Educação em Direitos Humanos: desafios e possibilidades – Profa. Dra. Roseli Fischmann (Coordenadora do PPG-ED da UMESP, Visiting Scholar da Harvard University no período 2003-2005; pesquisadora do CNPq; pesquisadora líder do NEDH).
Ementa: Estudo do conceito, fundamentos, evolução e significado contemporâneo da Educação em Direitos Humanos.
Bibliografia básica
Candau, Vera Maria. Educação em direitos humanos e diferenças culturais: questões e buscas. Múltiplas Leituras, Universidade Metodista de São Paulo, Vol. 2, No 1 (2009). Disponível em:
FISCHMANN, Roseli. Direitos humanos e educação. In: GIOVANNETTI, Andrea. (Org.). 60 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Conquista do Brasil. 1 ed. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2009, v. 1, p. 203-230.

12/05/2011 - Literatura, direitos humanos  e direitos indígenas na escola - Profª.Drª. Graça Graúna - (professora adjunta da UPE – pesquisadora realizando pós-doutorado junto ao PPG-Ed (UMESP) e coordena grupo de pesquisa DDHH)
Ementa: Uma abordagem da relação entre Literatura e Direitos Humanos. Usos da lei 11645/08, junto ao Núcleo de Educação e Direitos Humanos (NEDH) e no Curso de Pedagogia da UMESP.
Bibliografia básica
GRAÚNA, Graça. Vozes ancestrais e exclusão na literatura brasileira. In: BEZERRA, Benedito. Língua, literatura e ensino. Recife, Edupe, 2009, p. 151-162.  
SILVA, Paulo Thadeu da. Literatura e direitos humanos. Disponível em: http://www.ead.upe.br/extensao/course/view.php?id=2. Acesso em 20.ago.2010.
TAUKANE, Darlene. A história da educação escolar entre os Kurâ-Bakairi. Cuiabá: Darlene Taukane, 1999.

 19/05/211 - Sobre o direito a ter direitos: os “sem religião” no Brasil secular  - Prof.Dr. Dario Paulo Barrera Rivera (É Pesquisador da FAPESP e Coordena o Grupo de Pesquisa Religião e Periferia na América Latina (REPAL) e pesquisador do NEDH)
Ementa: O tema proposto pretende discutir quem são os “sem religião” e que desafios esse setor social propõe em duas perspectivas vinculadas aos Direitos Humanos: de um lado em relação ao Estado brasileiro com sua laicidade comprometida, de outro, como fica o direito a não ter religião na sociedade brasileira saturada de religião.

26/05/2011 - Sobre o direito a ser diferente: provocações sobre a hierarquização das diferenças na sociedade - Profª. Ms. Elizabete Cristina Costa Renders (Assessora Pedagógica para Inclusão na UMESP; pesquisadora no Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade e pesquisadora do NEDH)
Ementa: Trabalha, a partir dos estudos culturais, a tensão entre igualdade e diferença na sociedade, perguntando pelos distintos sujeitos e seus saberes diferentemente sábios. Especialmente, trabalha, a partir dos dados da pesquisa  FIPE/ 2009 - Incidência do preconceito e discriminação no ambiente escolar, os  processos de hierarquização das diferenças na sociedade.
           
02/06/2011 Democracia e pluralismo: A liberdade religiosa como fundamento intrínseco ao Estado de Direito  Prof. Ms. Jonathan Hernandes Marcantonio (Doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito e pesquisador do NEDH)
Ementa: A particular e mais marcante característica de um Estado Democrático é a possibilidade de acomodação de diversas e distintas, até mesmo opostas, manifestações sociais e culturais em um mesmo espaço público. A aula em tela tem como objetivo compreender as possíveis formas de manifestação deste pluralismo no espaço público brasileiro e como a estrutura democrática existente possibilita tais manifestações. A partir das constatações feitas nesse aspecto, intenta-se explorar tal pluralismo a partir das garantias ao direito de livre manifestação religiosa, bem como suas limitações.
Bibliografia básica
BONAVIDES, Paulo. Constituinte e Constituição - A Democracia, o Federalismo e a crise contemporânea. 3ªEd. SP. Malheiros. 2010.

09/06/2011 - Estado Laico: Uma introdução à laicidade do Estado – Prof. Ms. Oswaldo de Oliveira Santos Junior (Professor do Núcleo de Formação Cidadã, pesquisador do CNPq e pesquisador co-líder do NEDH)
Ementa: Estudo do conceito, fundamentos, evolução e significado contemporâneo do conceito laicidade do Estado.

Bibliografia básica
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. de Carlos Nelson Coutinho. 11. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
FISCHMANN, Roseli. Estado laico. São Paulo: Memorial da América Latina, 2008
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948.

Referência bibliográfica complementar

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 
CANDAU, Vera e outros. Oficinas pedagógicas de direitos humanos. Petrópolis/RJ: Vozes, 2003. 
CANDIDO, ANTONIO. O direito à literatura. In: CANDIDO, ANTONIO. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004, p.169-191. 
DHNET. Declaração universal dos direitos humanos - 1948-2008. CD-ROM, Multimídia, Natal/RN: Dhnet, 2008. 
FISCHMANN, Roseli. Educação, direitos humanos, tolerância e paz. Paidéia (Ribeirão Preto) [online]. 2001, vol.11, n.20, pp. 67-77. Disponível em:
FISCHMANN, Roseli. Estado laico. São Paulo: Memorial da América Latina, 2008
FREIRE, Paulo: Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1989.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948.
PALADINES E., Carlos. Discurso indígena y discurso de ruptura. In: Quinientos años de historia, sentido e proyección. México: Instituto Panamericano de Geografia e Historia/Fundo de Cultura Económica, 1991: 107-126.             
PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS. Brasília: Ministério da Educação/SEDH, 2007. 
RAMA, Angel. Literatura e cultura na América Latina. São Paulo: Edusp, 2001.
SILVEIRA, Rosa Maria Godoy et al. Subsídios para a elaboração das diretrizes gerais da educação em direitos humanos - versão preliminar. João Pessoa: Editora Universitária, 2007, p. 4.
TIRADENTES, J.A; SILVA, Denize R. da. Sociedade em construção – história e cultura indígena brasileira: o índio na formação da sociedade brasileira. São Paolo: Direção Cultural, 2008.

Apoio:
·     Universidade Metodista de São Paulo (UMESP)
·     Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo
·    Grupo de Estudos Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa - Universidade de Pernambuco - UPE

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Entre verso-e-prosa com Ademario Ribeiro

Imagem disponivel no blog de Ademario Ribeiro

Você já foi à Bahia? Não? Então vá. É só pegar a estrada que vai para Simões Filho, onde vive Ademario Souza Ribeiro, um filho do povo Payaya. Sua aldeia: Canabrava (atual Miguel Calmon), no Estado da Bahia.  Em seu blog Pensamentações, ele mesmo – Ademario - se apresenta:

Sertanejo das Terras dos Payayá, filho de Amélia Souza Ribeiro e de Alberto Severiano Ribeiro (in memoriam)... Escritor (poeta e teatrólogo), diretor teatral, educador ambiental, pesquisador dos povos indígenas e pedagogo. Membro, conselheiro e fundador de diversos coletivos entre estes: ONG ARUANÃ, Associação Muzanzu do Quilombo Pitanga de Palmares e Fundação Crê. Tem publicações diversas em jornais e sites.

Imagem disponivel no blog de Ademario Ribeiro

Em 2010, Ademario completou 52 anos, dos quais 44 anos correspondem ao tempo vivido na cidade. Estudioso da história e da cultura dos povos originários no Brasil, Ademario não esconde sua paixão pela língua Tupi; empregando-a nos poemas de sua autoria, nas peças teatrais que compõe e nas práticas pedagógicas com as crianças da periferia. Diante dessa realidade, cabe até perguntar: é certo dizer que uma língua é morta quando no dia a dia, essa língua ajudando-nos a suportar as dores do mundo? Conversando a respeito de vários assuntos, expomos também as nossas dúvidas em torno da tal Lei 11645/08 e outras questões pertinentes à literatura indígena e ao nosso lugar no mundo. Nesse ritmo, fiz algumas perguntas e ele, generosamente, arrecadou um pedaço do seu precioso tempo para responder o seguinte:  

Graça Graúna (GG) – As línguas indígenas podem explicar por que o Português falado no Brasil se diferenciou bastante do falar lusitano. Como você vê a questão?
Ademario Ribeiro (AR) - Sim. Fantasticamente sim! As línguas indígenas contribuem até hoje no enriquecimento da língua portuguesa. As primeiras pesquisas dão conta de que a língua Tupi contribuiu com mais de 10 mil palavras à língua que Camões e Fernando Pessoa falavam. Contudo, há pesquisadores que apontam que mais de 20 mil foram vernaculizadas. Para onde se fosse ou aonde se quisesse chegar, o que se procurasse ou se perdesse, o que comer ou que beber, as distâncias e o lugar de mata, de água boa, o clima, os ciclos da natureza, os gêneros, os acidentes geográficos, etc. Vinha tudo na ponta da língua Tupi.
Toda a nobreza das línguas indígenas e, em particular, o predomínio do Tupi – foram decisivos para transformar o falar lusitano em uma Língua Pindorâmica, mais tarde, poetizada como “Língua Brasileira”.


GG - Considerando o tempo de formação profissional enquanto Diretor Teatral ou como Educador Socioambiental (há 24 anos) e mais 35 anos atuando como Escritor, até que ponto você acha que a sua identidade (étnica) é indispensável à produção do conhecimento?
AR - Minhas reminiscências ameríndias abrem minhas percepções para ver e estar COM as pessoas e COM os entes da Teia da Vida. Através desta dimensão me conecto com o Todo e se dá meu processo de produção de conhecimento. Utilizando-me dos cinco sentidos, vou me acoplando aos rios, ao ar, aos cheiros, às visões, às reminiscências: me reciclando, me curando, me reconectando com O Grande Espírito.

GG -  O que você pensa da cultura indígena?
AR - Ela é a ontogenia da humanidade. Princípio e geratriz das culturas humanas. Ela guarda a essência, o segredo das terras, águas e céus. O ventre da fertilidade, o sopro do Grande Espírito que animam as nossas caminhadas, saberes e intervenções, nossas relações com o circular, com os ciclos, com os ancestrais, com as fêmeas, anciões e com as crianças, jovens e guerreiros. A cultura indígena como um Todo é a presença dialógica entre signos, símbolos e significados da nossa aventura na Mãe Terra.

GG -  E a respeito de história indígena?
AR - Muito que ser escrita, reescrita, assentada, reassentada, num processo de afirmação do ethos de cada povo/etnia. A cultura e história precisam continuar a circular, fazer seus corrupios. Na cosmologia tupi somos o som (tu) que se pôs de pé (pi). O som que veio do Pai, o som do Criador por onde tudo passou a ter forma. Na história dos povos, a força da palavra esteve muito presente na mulher e através dela inscreveu seu matriarcado. A mãe tece seus fios e sua palavra se conecta com o Todo quando a enuncia. Os pajés têm a palavra que cura e que acalma ou que elucida as nuvens do amanhã. Os anciãos têm a palavra que nos ensina porque em suas caminhadas já se tornaram conhecedores das curvas e nos acalmam quando afoitos ou que nos alertam quando dormimos no ponto. Precisamos acordar e tomar tendência, posição para que tiremos dos subterrâneos as vozes veladas, expatriadas de Pindorama, de Abya Yala, banidas e amesquinhadas pelo eurocentrismo que engendrou as tantas faces dos preconceitos e discriminações e das tragédias que muito abateram os povos indígenas ou que afugentaram e expurgaram para bem distante daquela que chama para si a denominação de “civilização branca” que sob a argamassa dessa ignomínia - esse eurocentrismo fundamentou seus domínios. Muitas águas ainda vão rolar para nos livrar das marcas tão presentes nas almas e comportamentos explícitos e implícitos em nossa sociedade hodierna que mal se disfarçam ou que nos difamam. Nossa história agora não é outra, mas agora quem escreverá não serão os nossos algozes, nossos estigmatizadores – não serão os lobos disfarçados, não serão os “homens bons” ou seus filhos abastados que alisaram os bancos da ciência: nós sim, aqueles que se levantam junto COM seus ancestrais e COM os novos saberes tecidos com a força da nossa cultura e história.

GG- Como você vê a relação entre literatura e direitos humanos?
AR - Primeiro porque literatura é palavra. Tudo se revela quando a palavra soa, chega, voa, põe, impõe ou se esquadrinha no papel: pa (som) lavra: som da cultura humana. A literatura tem a capacidade, a sensibilidade, essa transversalidade e transdisciplinaridade de nos envolver. De estabelecer relações, de anunciar o devir. Cria estratégias e contextos para os valores de uma sociedade pacífica, humanitária se comuniquem com a alma e com o cotidiano das pessoas. A literatura lida com a escrita e a escrita é palavra, signos e assim vão se revelamos os direitos humanos, numa conquista da humanística até que a alteridade seja uma cultura dialogada COM o OUTRO e COM o BEM comum para TODOS.
 
GG - O que você acha dos recursos que as escolas não-indígenas utilizam na abordagem dos saberes indígenas? 
AR - A educação brasileira estereotipou as culturas indígenas e daí, preconceitos e discriminações fundamentaram a práxis pedagógica. Reporto-me sobre um aspecto disto no poema “As coisas como elas são”, de minha autoria:

Se aprende na escola
Que casa de índio é OCA
(isso se for para os Tupi)
e é que também cola
se for para os Wayãpy.

Aonde Yanomami se toca
É XAPONO e a gente a insistir
Chama de MALOCA
Mas para os Xavante é RI
Para os Pataxó é PÃHÃI
É SETHE para os Fulniô
Para os Karajá é HETÔ
Para os Munduruku é uka’a...

E para os Yawalapiti?
E para os Txukahamãe?
E para os Kiriri?
E para os Krahô?
E para os Maxakali?
E para os Xakriabá?
E para os Kaaeté?
E para os Tuxá?
E para os Kantaruré?...
É bom não se confundir
Não é um FEBEAPÁ
E não se fica em pé
Quando seguro não está!!!

GG – A exemplo do espírito crítico que habita em seus poemas, que recursos você aplica na abordagem dos saberes ancestrais?
AR - A metodologia/abordagem se movimenta no levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos acerca do conhecimento sobre os Povos Indígenas no Brasil. As intervenções acontecem num enfoque interdisciplinar: (enfaticamente, história, geografia, língua portuguesa, por exemplo), transdiciplinar: (teatro, poesia, artesanato, música, dança, etc.) com aulas interativas, apresentação de slides, audiovisuais, elaboração de álbuns seriados, elaboração de glossário ilustrado, material expositivo, cartazes, discussão sobre matérias do Jornal Porantim, leituras de textos sobre mitos e lendas, produção de textos, realização de oficina de cerâmica/artesanato, peteca e da língua tupi (da qual sairão o glossário, o canto  ritual) e a performance/dramatização, culminando com exposição e artesanal e apresentação poético-musical e teatral, como resultados práticos e atividade avaliativa.

GG - Como você se considera em relação a sua aldeia?
AR - Sou destribalizado. Vivo como proscrito, um Uirás, mas, cúmplices dos meus parentes em seus projetos, ações, compartilhamentos, denúncias, documentos e, ora, a convite do cacique Juvenal Teodoro Payayá e me comprometi a realizarmos o “Projeto do Povo Payayá.” E, a convite de Edgar Otacílio de Oliveira, mestre em Educação, vou contribuir com os índios Kaimbé, um curso de Tupi. O tupinólogo Joubert de Mauro também me deu a sua palavra no sentido compartilhar conosco. Assim tem sido a minha inscrição: junto a você Graça Graúna, à Eliane Potiguara...

GG – Sentir-se “destribalizado” é uma sensação horrível, mas quero lembrar algo que eu já te falei em outras ocasiões.  Acredito que
é possível dizer – dentro da percepção indígena que o(a) indígena não deixa de ser ele/ela mesmo(a) em contato com o outro (o não-índio), ainda que o(a) indígena more numa cidade grande, use relógio e jeans, ou se comunique por um celular;  ainda que uma parabólica pareça ao outro um objeto estranho ou incompatível com a comunidade indígena.  Mesmo assim, a indianidade  permanece,  porque o(a) índio(a), onde quer que vá, leva dentro de si a aldeia. Esse modo de perceber o meu lugar no mundo me leva a  refletir mais acerca de algumas questões ainda não resolvidas; uma delas é a Lei 11645/08. Por exemplo: você acredita que material didático utilizado na escola não-indígena é coerente com a realidade dos povos indígenas?
AR - Tua percepção é uma via sem volta. Ela nos direciona. Você, GG, querida kybyra (irmão(a) nos alimenta com esta luz. Quanto aos materiais didáticos, via de regra, não. Eles ainda não dão conta da sociodiversidade, alteridade, identidade, cultura, história, cosmologia, etc. dos povos indígenas. Contudo sabemos de exceções. Dessas, algumas práticas mais pontuais vão por conta de pessoas iguais a você Graça Graúna, Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Juvenal Payaya, Heitor Karai Awá-Ruvixá, entre outras. Depois as pontuais mas que são, obviamente, estimuladoras também e cumprem um papel de emancipação e cidadania. Sobretudo, realizei o Projeto de Intervenção “História e Cultura dos Povos Indígenas: passado presente pra valer”, no Centro Educacional Santo Antônio – CESA, em virtude da 3ª etapa do Estágio Supervisionado, ministrado pela Profª Sandra Augusta de Melo, no curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e a Faculdade Intercultural da UNEMAT que está realizando esforços e têm instrumentalizado, encorajado e graduado muitos professores indígenas e possibilitando que a sociedade não-indígena passe a reconhecer os povos indígenas e seus direitos.

 GG - Em que ocasiões e de que modo você faz uso da Lei 11.645/08?
AR - Nas minhas ações nos mais diversos coletivos, tais como os Territórios de Identidade, Lista de Literatura Indígena, moderada pela escritora e professora Eliane Potiguara; como estudante no Grupo de Pesquisa, liderado por você Graça Graúna que é educadora em literatura, na UPE; nas conferências, palestras e exposições em escolas, associações, ONGs, universidades; nas abordagens artístico-culturais, através da teatrologia, poesia; no compartilhamento de materiais e nos intercâmbios com profissionais de educação, lideranças indígenas, negras e quilombolas.  Também, apresentei em Salvador, dia 24, nesse mês, no 2º Seminário: “O Desafio de Educar Trocando Saberes, Renovando Esperanças”, com o CESA: “História e Cultura do Povos Indígenas: Abordagem transversal fortalecida pela Lei 11.645/08”. Sobretudo, tenho tentado articular temas/conteúdos de história, ciências/meio ambiente, língua tupi, direitos humanos, música, arte, literatura e teatro, para sensibilizar e mobilizar pessoas e coletivos ao resgate e valorização dos povos indígenas no Brasil.

GG - Até que ponto a Lei 11.645/08 contribui para que os povos indígenas sejam reconhecidos como os primeiros habitantes do Brasil?
AR - A lei é só um amparo legal. Sozinha ela não se mexe do papel e nem tampouco sai dele para trazer à luz cotidiana e nem à consciência o que está velado nos subterrâneos dos conceitos e preconceitos produzidos pelo eurocentrismo e reparar, devolver, resgatar e reescrever a história e cultura desses povos. Precisamos movimentar forças: governos, instituições de ensino e sociedade civil para que esta lei não fique apenas no papel. Se conseguirmos fazer isso – a 11.645/08, cumprirá em pari passu com as nossas práticas e utopias, a sua função nesse processo já iniciado pelos movimentos indígenas e negros ao longo dos anos. Dessa forma ela poderá contribuir no ensino-aprendizagem quando possamos compartilhar saberes, práticas e valores concernentes aos povos indígenas; na perspectiva da diminuição dos preconceitos e indiferenças que tanto têm violado e violentado seus direitos e vidas. Penso que essa lei torna o invisibilizado mais visível. Por vir à tona não será desconhecido. Por ser contextualizado em suas culturas não serão genéricos: suas faces plurais mostrarão sua sociodiversidade ameríndia, nativa, etc. A dialogia abrirá canais de exposição, debates que apresentarão essa diversidade fazendo com que as percepções se expandam formando um círculo em que as extremidades se encontrem para o reconhecimento das semelhanças e diferenças e que diminuamos as indiferenças.

GG – A nossa conversa em torno da lei 11645/08 é só uma ponta do iceberg. Vamos torcer, então, para que nas escolas a nossa história, a nossa memória, a nossa origem sejam respeitadas de maneira que o outro nos permita ser e estar no mundo. Para agradecer a sua atenção, o seu carinho e a sua sabedoria, tomo a liberdade de apresentar, aqui, o poema intitulado “Aguata py’ýi  ou Acelerar os passos”. Este poema escrevi em homenagem aos parentes e às  parentes indígenas e em homenagem  também a sua poesia que me encanta. Que Ñanderu nos acolha!

Aguata py’ýi 
                                por  Graça Graúna

...e se mil línguas eu falasse
levaria teu sonho entre as estrelas
e lá no centro da terra
eu diria: salve,  Abya Yala, salve!


Assim deve ser, assim será
a cada brilho da noite
a cada chama do dia
bem digo a Ñanderu eté
Nosso Pai verdadeiro:
recebe meu Pai, a alquimia da palavra
dos filhos, das filhas da terra
recebe nossa alegria e os nossos sonhos
acolhe também nossos desencantos
porque somos tua herança

invisíveis, ressurgidos
mas não somos um, nem cem, nem mil
somos infinitamente filhos da resistência
somos parte do teu ser
Potiguara, Guarani,
Tukano, Xavante,
Sateré, Nambikuara,
Pataxó, Truká,
Terena, Munduruku,
Payaya, Fulni-ô

Pankararu, Pankará,
Xukuru, Tupi,
Yanomami....yanomami....
todos os povos
todas as nações
somos todos
do abaeté da lagoa do Senhor do Bomfim
das ladeiras de Olinda do canavial
da serra do vento da serra do mar
de Norte a Sul
de Leste a Oeste
do Oiapoque ao Chui
somos teus somos nossos
e como diria Ademario
vamos todos assim
- Aguata py’ýi!
- Aguata py’ýi!
- Aguata py’ýi!
 




Nota:
Abya Yala = na língua do povo Kuna (Colômbia), quer dizer Terra madura, Terra viva, em florescimento.
Ñanderu eté = em guarani, quer dizer: Deus Pai verdadeiro
Aguata py’ýi! = em tupi, quer dizer: acelerar os passos

 Autoria: Graça Graúna, Nordeste do Brasil, abril indígena 2009. O poema Aguata py’ýi  ou Acelerar os passos  foi publicado pela vez primeira no site Overmundo, em 18 abril de 2009.